sábado, 25 de agosto de 2012

dando voz ao sujeito da aprendizagem: um estudo com crianças no primeiro ano do ensino fundamental


dando voz ao sujeito da aprendizagem: um estudo com crianças no primeiro ano do ensino fundamental
Alfabetização , leitura  e escrita. GT 10.
Regina Mary César Reis. UNITAU.

Entendemos a alfabetização como a questão básica na discussão sobre o processo educacional escolar. Considerada como uma prioridade, em especial, no inicio da escolarização das crianças, a alfabetização integra a dimensão democratizadora da função da escola. Isto porque a socialização da escrita, insere-se na problemática mais ampla do fracasso escolar, longamente vivenciado por um grande contingente de alunos oriundos das camadas populares, que freqüentam as escolas públicas brasileiras.
Em uma revisão da literatura que trata da contribuição de estudos e pesquisas para o processo de alfabetização, especialmente daqueles que descrevem práticas bem sucedidas, verificamos a insuficiência de relatos sobre a fala dos alunos no decorrer da aprendizagem escolar. Poucos estudos dão voz a criança, isto é, relatam manifestações dos alunos sobre as suas próprias experiências escolares. Existe uma diversidade de enfoques que consideram os processos pedagógicos, ou os aspectos psicológicos envolvidos no aprendizado da leitura e da escrita, privilegiando-se as questões  relativas ao professor, em sala de aula. Contudo, levar em consideração a percepção da criança sobre as situações que vivência na escola pode também, trazer contribuições relevantes para melhor compreensão da aprendizagem escolar.
Dar voz ao aluno, entendido como sujeito da aprendizagem foi o objetivo do estudo que realizamos e que apresentou-se-nos como um desafio. Um desafio que acompanhou os momentos das entrevistas com as crianças e as conversas sobre o seu fazer em sala de aula. O aluno, enquanto sujeito, deve ser um participante ativo das situações que vivencia na escola. Assim, propusemo-nos a ouvir o relato da própria criança e as suas percepções sobre as atividades que realiza em classe.
A pesquisa destacou as experiências de aprendizagem de sessenta crianças de quatro classes de alfabetização de uma escola pública, da cidade de Taubaté, interior do Estado de São Paulo, valendo-se das informações dos próprios alunos, de como eles percebem e expressam suas vivências escolares. O enfoque centrou-se no aluno, visto como sujeito do conhecimento e no que ele falou sobre a sua relação com a professora, os colegas e os conteúdos escolares, na educação infantil e no ensino fundamental.
As crianças foram ouvidas em entrevistas e em conversas nas salas de aula, mostrando-se espontâneas e curiosas, respondendo ou mesmo fazendo perguntas. Com base nas suas expressões, foi possível conhecer com mais profundidade suas histórias de vida escolar, o que apreciam, seus interesses e necessidades que manifestam no momento que vivenciam o aprendizado da leitura e da escrita. Essas informações favoreceram a reflexão sobre as experiências de aprendizagem e, em conseqüência, podem alimentar a mediação pedagógica.
Valendo-nos das expressões dos alunos, enquanto sujeitos ativos de sua própria aprendizagem e pelos aspectos da atuação das professoras, que puderam ser destacadas de suas falas, apresentamos como síntese das análises e interpretações, alguns resultados e conclusões.
Quando as crianças fizeram referências às suas experiências pré-escolares, as lembranças foram muito positivas, saudosas, prazerosas e felizes, para a maior parte delas. Elas falaram de forma carinhosa da professora, de colegas e de atividades que realizavam na educação infantil. Entretanto, para algumas crianças, essa experiência não foi tão positiva.
Nesses casos, o não gostar da pré-escola apareceu ligado aos relacionamentos conflituosos, especialmente com a professora ou com colegas. A professora não estimada pela criança era vista como muito brava, indiferente aos seus apelos ou agressiva, inclusive fisicamente (“puxava a minha orelha”) ou teria apresentado comportamento inadequado que permaneceu na memória do aluno (“ficou com o meu dinheiro”).
Em relação ao processo pedagógico na educação infantil, apesar da existência e da divulgação de um grande número de estudos que apontam os jogos e as brincadeiras como recursos fundamentais para o desenvolvimento da criança, ainda são pouco usados como instrumento didático nesse contexto.
As atividades desenvolvidas na pré-escola e rememoradas pelas crianças ouvidas neste estudo, apontam algumas questões que devem ser consideradas na formação de educadores infantis. Dentre as quais destacamos a necessidade de construção do sentido e do significado das situações partilhadas em sala de aula; da apropriação do lúdico como recurso pedagógico indispensável ao desenvolvimento e a aprendizagem das crianças; a reflexão sobre o papel e o valor das interações sociais na educação da infância.
As experiências vivenciadas pelos participantes deste estudo, na escola fundamental, foram discutidas e analisadas com base nas expressões das crianças sobre a própria escola, a professora, as atividades de ensino realizadas em sala de aula, os colegas, os brinquedos e as brincadeiras, a importância conferida ao estudo, as ajudas recebidas em casa para as tarefas escolares e as suas expectativas em relação ao futuro.
Em relação à escola que estavam freqüentando no momento da pesquisa, apenas uma criança revelou gostar mais ou menos da escola, porque todas as demais entrevistadas afirmaram gostar de sua escola e, dentre as várias justificativas apresentadas, destacamos “porque ela ensina”.
Parece-nos que esses alunos construíram uma percepção da função da escola que corresponde exatamente àquela a ser desempenhada pela instituição na sociedade, ou seja, a de ensinar. Essa percepção liga-se a consciência que os alunos revelaram sobre o papel da escola na socialização dos reconhecimentos e às relações que são estabelecidas nesse contexto. As crianças, mesmo não operando com definições muito precisas, foram capazes de caracterizar a função de ensinar da escola e o papel do aluno de aprendiz: “ aqui a gente aprende a ler e escrever” , “já aprendi muitas coisas” , “ a tia ensina e eu aprendo”.
Uma das questões evidenciadas por este estudo, foi a importância do aspecto relacional que envolve professor e aluno, em torno do conhecimento. É nessa tríade que reside a maior parte das condições que tanto podem ser favorecedoras quanto dificultadoras da construção dos conteúdos propostos pela escola. Nas suas expressões, os alunos exemplificaram a qualidade dessa relação: “eu acho a tia superlegal. Ela dá muita coisa e eu aprendo bastante”, “o que a gente não sabe ela ensina”, “ela é bem boazinha e me ensina”.
Entre as crianças ouvidas, apenas duas disseram gostar “mais ou menos” da professora; uma porque ela grita muito e outra que não apresentou justificativa, mas apenas um porque sim. Entre os alunos que afirmaram gostar da professora, a maior parte percebe aspectos cognitivos e afetivos envolvidos na relação ensino-aprendizagem. A afetividade apareceu como uma expressão simbólica de grande significado na vida escolar, ainda que não suficiente para garantir a aprendizagem, mas que constitui um componente que favorece as relações interpessoais e, em conseqüência, a construção de conhecimentos.
Em relação às atividades de ensino que realizam em classe, os alunos apontaram que o gostar, se relaciona com as atividades mais comumente apresentadas pelas professoras, numa espécie de crença construída sobre a importância daquilo que é proposto em sala de aula. Conforme Teberosky (1994) e Landsmann (1998), a criança aprende a gostar de escritas porque estas são bastante freqüentes e aprende, com certeza, a apreciar a leitura desde que esta esteja presente no cotidiano pedagógico das classes que freqüentam. Gosta de ler ou produzir historinhas, fazer desenhos e pintar, realizar cálculos matemáticos e probleminhas envolvendo as operações porque estas atividades fazem parte do ensinar/aprender na  escola.
Sem a participação ativa do aprendiz nas situações em torno do conhecimento, criadas pelo professor em sala de aula, não há aprendizagem. É, portanto, na relação com o conhecimento, em sala de aula, que o aluno se constitui sujeito: “eu pego o jornal(...) e leio as palavrinhas que eu já conheço”, “eu gosto de historinhas(...) a minha prima e o meu primo(...) fico contando a historinha para os dois”, “ eu gosto de escrever na lousa(...) porque a gente aprende”.
O processo de socialização da criança, que teve inicio na educação infantil, se prolonga e se fortalece na escola fundamental, especialmente no momento em que ocorre o desenvolvimento do pensamento categorial (Wallon, 1949/1995). Na instituição escolar acontece uma importante relação interpessoal que é a estabelecida com os amigos. Estes são lembrados como algo que a escola tem de bom: “o lado bom daqui(...)é que aqui eu tenho muito amigo legal”. A escola inclui, portanto, pessoas queridas como a professora e os colegas que são amigos e com os quais se brincam, e que fazem parte das lembranças positivas que permanecem na memória da infância.
O sentido dado pelos alunos à atividade de estudar, ainda que construída a partir do grupo sócio-cultural de origem da criança, é desenvolvido na relação pedagógica. As situações interativas que ocorrem em sala de aula vão conferindo significado às experiências vivenciadas no contexto escolar. Assim, o estudo possibilitou algumas reflexões sobre as relações entre o professor e o aluno, e entre o aluno e a vivência escolar.
Da forma como a criança expressa, ela parece compreender o papel de ensinante exercido pela professora. Cabe à professora favorecer, fazer a ponte, relacionar os conteúdos com o cotidiano, com a realidade e com a história de vida de cada criança; mas pode também,  dificultar ou mesmo obstruir a relação desta com o conhecimento. Nessa relação o aluno sente, vê, percebe, aprende, forma opinião sobre a escola, a professora, as atividades e se transforma em sujeito.
O conhecimento é o eixo fundamental da relação do aluno com a escola e a professora. Aquilo que se ensina define, não somente a estrutura de organização do próprio conteúdo, como todas as interações que têm lugar em sala de aula. É em torno do conhecimento que gira toda a situação escolar, o que vai interferir na constituição do próprio sujeito, porque afeta a sua maneira de perceber o mundo e a formação da sua consciência, portanto, a construção da sua identidade (Wallon, 1949/1995).
A escola a que se referem os alunos, é um lugar de aprendizado: de ler, escrever, fazer cálculos, desenhar, pintar, encontrar os amigos, brincar, respeitar os outros, cooperar, “ter educação”. A função de ensinar da escola parece clara para as crianças, mas elas atentam também para aspectos que não lhe agradam e reclamam por mudanças. Sugerem mudanças físicas associadas à atitude de cuidado e preservação: arrumar o pátio, a quadra, limpar melhor os banheiros, colocar telha nova, pintar as paredes, pôr toalha nas mesas etc. Requerem melhor utilização dos espaços, dos pátios, da quadra, para brincar, jogar, melhorar a merenda e “dar dinheiro” para a escola, pois talvez achem que essa é uma necessidade. A sala de aula é alvo de proteção, de afeto, de conservação e arrumação: é preciso cuidar, limpar e enfeitar.
Como espaço do encontro relacional professor/aluno/conhecimento, a sala de aula é  o local onde deve ocorrer a integração entre o conteúdo das atividades escolares e a realidade cotidiana da vida das crianças. Precisa ser um espaço aberto onde o aluno seja estimulado a enfrentar situações diversas que estejam presentes e que constituam parte de sua realidade. Nesse espaço não é possível a convivência ou a conivência com o fracasso escolar.
A forma de organização da escola, a sistemática das aulas, o empenho dos docentes e outros agentes do processo educativo devem ser no sentido de congregar esforços para um tratamento adequado às diferenças. O trabalho individual com cada criança e no coletivo da classe, deve garantir o acesso de todas aos conhecimentos exigidos pela escola e valorizados socialmente.
Este estudo ressaltou a importância do professor conhecer melhor o aluno, as aprendizagens que ele já construiu, sua maneira de pensar, suas necessidades e interesses reais, para colocá-lo como sujeito ativo de sua aprendizagem. Conhecendo como as crianças sentem e pensam sobre a escola e o processo de ensino, sabemos que, quando são ouvidas e atendidas, podem sentir-se capazes, aptas, para aprender e participar como agentes transformadores da realidade.

Referências bibliográficas:
LANDSMANN, L.T. Aprendizagem da linguagem escrita. Processos evolutivos e implicações didáticas. São Paulo: Ática, 1998.
TEBEROSKY, A. Aprendendo a escrever: perspectivas psicológicas e implicações educacionais. São Paulo: Ática, 1994.
WALLON, H. (1949). As origens do caráter na criança. São Paulo: Nova Alexandria, 1995.

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